quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Leonora ♥



"Sempre tive pequenas paixões de transporte público, que terminavam na próxima parada. Era divertido reparar nas coisas que me encantavam e que elegiam a garota x como minha paixão do dia. Ora era o cabelo preso num coque bagunçado, ora um livro que eu gostava muito e que estava sendo saboreado com muita concentração por uma delas, ora era o jeito meio doidinho de balançar a cabeça enquanto vazava dos fones dela algum rock das antigas. Mas nunca tive culhões para me aproximar de nenhuma delas ou de simplesmente fazer um elogio, do tipo "gostei da cor do seu cabelo", ou "muito legal a sua camiseta". Até que a vi. Ela, que mais tarde descobri se chamar Leonora (e quando descobri esse nome tão forte me entreguei mais ainda). Eu sei, gente, eu sei que ninguém acredita nessa conversinha mole de amor à primeira vista, mas nesse caso foi amor à décima nona vista. Leonora me surpreendia todo dia assim que embarcava no metrô. Ela lia livros que me pareciam ótimos, vestia-se de um jeitinho todo dela, autêntico, tinha um perfume que se espalhava pelo vagão sem ser enjoativo, dava risadinhas contidas que na verdade queriam ser gargalhadas enquanto assistia seriados pelo celular e ficava nervosa quando o grifo de marca texto fluorescente saía torto nos materiais que eu supunha serem da faculdade. Louco eu, não? Ficar tão encantado por essas coisas tão banais feitas por uma desconhecida de quem eu não sabia mais nada além do que ela me mostrava sem saber durante a viagem de quatorze estações. Pois bem. Decidi tentar uma aproximação num dia quente. Aproveitei uma brecha e assim que o assento ao seu lado ficou vago, me sentei, na mesma hora em que ela tirava o cardigan e exibia uma camiseta do AC/DC. Bingo. Highway to hell. Disse um 'oi', ela levou um susto mas respondeu, e procurei ser espontâneo, sem parecer um stalker que ficava olhando-a absorto todos os dias. Engatamos um papo descontraído, desci na minha estação e no outro dia, como sempre, lá estava ela, que deu um sorriso leve ao me ver. Fomos conversando durante nossas viagens, até trocarmos telefones, mensagens, encontros, beijos e outras coisas mais. Agora, neste exato momento, Leo está tirando um cochilo no nosso sofá, linda como sempre foi. E vê-la descansar tão serena me faz perceber como a vida nos proporciona boas coisas de formas tão simples. Hoje sou um cara feliz, simplesmente porque numa manhã de sol eu disse "oi" para Leonora e ela respondeu. Não precisei de muito esforço, só de uma saudação e de um pouquinho de cara de pau, que, convenhamos, é uma graça salvadora às vezes."

- E aí, o que achou do meu conto?
- Eu gostei, Rafael, agora só falta você seguir os conselhos do seu personagem e falar com a menina com quem você cruza todos os dias na linha azul, de quem você me fala sempre, né?


Carol.. ( mais uma colaboradora )

Nenhum comentário:

Postar um comentário